quarta-feira, 7 janeiro, 2026
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DESIGUALDADE SOCIAL: Quilombolas têm mais mortes por diarreia, desnutrição e homicídio que a média da população empobrecida, revela estudo

Pesquisa da Fiocruz escancara o impacto do racismo institucional na saúde e na vida quilombola

No Brasil, ainda se morre de fome, de sede ou de diarreia. Mas morre-se mais quando se é quilombola. Um estudo inédito divulgado no final de 2025 pela Fiocruz Bahia, em parceria com a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), traçou pela primeira vez um panorama nacional da saúde dessa população e os resultados escancaram um quadro de desigualdade brutal, marcado por mortes evitáveis, racismo institucional e violência fundiária. Mesmo em comparação com outras populações empobrecidas e em vulnerabilidade social, quilombolas morrem mais de diarreia, desnutrição, causas mal definidas, doenças crônicas como diabetes e, também, são mais vítimas de homicídios.

Um dos pilares do estudo é a chamada Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, uma plataforma científica desenvolvida pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia. Essa base massiva reúne informações de mais de 140 milhões de pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), sistema voltado ao acesso a programas sociais do governo federal. A partir do cruzamento com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), a Coorte permite identificar padrões de vida, adoecimento e morte de populações historicamente invisibilizadas pelo sistema de saúde – como é o caso da população quilombola.

Nesta primeira edição do boletim intitulado Saúde Quilombola no Brasil: Evidências para a Equidade, os pesquisadores trabalharam com um recorte específico: cerca de 64 mil pessoas adultas autodeclaradas quilombolas dentro da Coorte. A partir desse grupo, foi possível gerar comparações com o restante da população de baixa renda, revelando desigualdades profundas e estruturais. Como o SUS não pergunta se um paciente é quilombola, o CadÚnico se torna a única forma de rastrear essa identidade e expor, com base em dados, onde estão os vazios da política pública. Foi assim que o estudo comprovou, por exemplo, que os quilombolas morrem mais de causas evitáveis, enfrentam maior risco de homicídio e têm acesso precário aos serviços básicos de saúde.

Os dados reforçam o que há anos é denunciado por lideranças e movimentos populares: o SUS não chega de forma adequada às comunidades quilombolas. A ausência de saneamento básico, a distância até os postos de saúde e a falta de reconhecimento institucional das comunidades quilombolas criam barreiras que custam vidas. A isso se soma a violência dos conflitos por terra, que nunca cessou.

No Sul do país, por exemplo, a taxa de mortalidade por diarreia entre quilombolas chega a 4,7 por 100 mil habitantes, contra 1,5 na Coorte 100M. No Nordeste, a mortalidade por desnutrição atinge 3,3 entre quilombolas, contra 1,9 no restante da população analisada.

O índice de mortes por causas mal definidas é outro indicativo de negligência: 42 por 100 mil entre quilombolas, contra 30,5 na Coorte. No Sudeste, esse número chega a 73,3. “A pessoa não teve nem acesso a diagnóstico, não teve nem acesso ao saber do que que ela morreu”, avalia Mateus Brito, pesquisador e integrante da Conaq.

Mesmo doenças crônicas como diabetes apresentam maior letalidade entre os quilombolas (28,2 por 100 mil) do que na Coorte (26,8).

Estudo inédito

Para Mateus Brito, uma das principais vozes na defesa de políticas públicas específicas para os territórios tradicionais, o próprio fato de o estudo ter sido necessário já diz muito sobre o lugar que essa população ocupa nas políticas públicas.

“Esse boletim foi fruto de muita luta da própria Conaq para a gente conseguir parcerias e conseguir ter pelo menos a informação de como é que nasce, como vive, do que adoece, do que morre a população quilombola, porque o Ministério da Saúde não tem como responder essa pergunta”, aponta. “Quando um quilombola chega num posto de saúde, numa UPA, no hospital, não perguntam na ficha se ele é quilombola. Então, se não pergunta, não tem dado.”

Segundo ele, a falta de dados revela um problema maior: “O SUS ainda não chegou nesses territórios como deveria chegar.” Os efeitos desse não reconhecimento são visíveis nas taxas de mortalidade por doenças evitáveis e pela ausência de diagnóstico.

Ana Eugênia da Silva, pesquisadora e quilombola do Sítio Veiga, em Quixadá (CE), que também participou da elaboração do estudo, resume: “Sem um olhar específico, você não vai compreender porque a população quilombola em pleno século 21 morre de diarreia, de desnutrição. Isso são doenças tratáveis. Não deveria ser causa de morte.”
Violência letal cresce onde falta titulação da terra

A vulnerabilidade quilombola não se limita à saúde física. Segundo o estudo, a taxa de homicídios entre quilombolas é de 22,1 por 100 mil habitantes, frente a 14,8 na Coorte. No Sudeste, o número salta para 26,3. De 2018 a 2022, ao menos 32 lideranças quilombolas foram assassinadas, em sua maioria com armas de fogo.

Para Mateus Brito, não é coincidência. “Essas mortes por homicídio a gente atribui à falta de titulação dos territórios quilombolas e ao aumento das disputas fundiárias. Isso atua como um determinante social da saúde. Se o território está atravessado por conflitos, óbvio que isso vai afetar a saúde das pessoas. É suicídio, é homicídio, é depressão.”

Ana Eugênia também aponta o impacto direto do conflito sobre a vida das mulheres quilombolas: “Quem mais adoece são as mulheres. Porque nós somos as que estamos na maioria nas frentes dessas lutas. A maioria das mulheres está adoecida e a causa principal é conflito.”

A ausência de titulação das terras quilombolas não é apenas um problema fundiário: ela afeta diretamente a saúde das comunidades. De acordo com dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), há atualmente 1.857 processos de regularização territorial abertos. Se o ritmo atual de titulação for mantido, o Estado brasileiro levará 2.700 anos para concluir todos eles.

Enquanto isso, 98% das terras quilombolas reconhecidas seguem sob ameaça de expulsão, grilagem ou ocupação por grandes empreendimentos. “Se não tem terra, não tem segurança, não tem saúde. O território é a base. A ausência dele é que nos causa adoecimento”, afirma Ana Eugênia, liderança quilombola do Ceará e uma das vozes mais ativas no debate sobre saúde.

Mateus Brito reforça que o não reconhecimento da terra está na origem de muitas das violências que atingem a população quilombola: “De um lado, essas mortes por homicídio a gente atribui à falta de titulação e ao aumento das disputas fundiárias. Isso atua como um determinante social da saúde. Se o território está atravessado por conflitos, isso vai afetar diretamente a vida das pessoas”, afirma.

Ele lembra que, entre 2018 e 2022, ao menos 32 lideranças quilombolas foram assassinadas por conflitos socioambientais, e cita o caso de Mãe Bernadete como um marco da brutalidade que atinge quem luta pelo direito à terra.

Para ela, é impossível falar de saúde sem considerar o que ela chama de “as diversas nuances em que nossos corpos são atravessados”: falta de água, de luz, de internet, de banheiro, de uma política que contemple, além da medicina “branca”, os conhecimentos ancestrais do povo quilombola. “As pessoas perguntam: ‘Por que os quilombolas querem uma saúde específica?’ Ora, porque nós temos especificidades.”

“A gestão pública ignora as especificidades culturais e os saberes tradicionais de cura em favor de um modelo urbano-centrado e excludente.”

Apesar do abandono estatal, a saúde quilombola sobrevive. E não por acaso. “Os quilombos têm 500 anos. O SUS só tem 30. Como é que a gente sobreviveu ao longo de 450 anos?”, pergunta Mateus. “Foi por conta das medicinas quilombolas. Saberes das parteiras, rezadeiras, benzedeiras, raizeiros, mateiros, erveiros… que estão dentro das comunidades.”

Ana Eugênia conclui: “A saúde quilombola é isso também. A medicina tradicional. Os chás, as ervas, as plantas. O território é um espaço também de cura.”

Sem saneamento e acesso ao SUS, saúde é precarizada

Apenas 9% das moradias quilombolas possuem rede de esgoto – contra 57,3% da Coorte. Além disso, 21,5% dos domicílios não têm banheiro, e só 34,7% contam com coleta de lixo. Para alcançar a unidade básica de saúde (UBS) mais próxima, um quilombola percorre em média 8 km. No Norte, a distância média salta para 43 km.

Mateus Brito exemplifica: “Imagina você ser uma pessoa que usa cadeira de rodas morando dentro de uma comunidade quilombola que fica a 43 km da UBS mais próxima. Para chegar num hospital, num ambulatório, deve ser muito mais. Porque eles estão sempre na zona urbana, e as comunidades estão na zona rural, para dentro mesmo.”

A rede de urgência também falha. “A ambulância não chega. A pessoa tem que ser levada nas costas, no carro, na carroça, no cavalo, na rede, no barco”, detalha Mateus. “Que rede de urgência é essa que não tem nem como socorrer uma pessoa que tá passando mal?”

Editado por: Luís Indriunas

Foto/Crédito: Marianne Ortelli

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/04/e-04-quilombolas-tem-mais-mortes-por-diarreia-desnutricao-e-homicidio-que-a-media-da-populacao-empobrecida-revela-estudo/#

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