terça-feira, 27 setembro, 2022
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Especialistas dizem que explosão de mortes por covid exige medidas: ‘não estamos fazendo nada’

O Brasil voltou a superar nesta quinta-feira (4), a marca de mil novas mortes por covid-19 confirmadas em um único dia. As 1.041 mortes foram o maior número confirmado em um dia desde 26 de agosto de 2021 (920 mortes registradas) e a primeira vez que passa de mil óbitos desde 18 de agosto (1.064), segundo dados do painel covid-19 do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

O médico infectologista Alexandre Zavascki, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), diz que o crescimento dos óbitos era esperado para ocorrer semanas após a disparada de casos, registrada a partir do início do mês de janeiro no Brasil. No Rio Grande do Sul, o número de pacientes com covid-19 ou com suspeita internados em UTI chegou a 699 nesta sexta-feira (4). Em 1º de janeiro, somavam 243. “A curva dos óbitos não vem no primeiro momento. Ela tem um atraso que é da própria evolução da doença”, diz Zavascki.

O cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19, destaca que, em janeiro, foram registrados 3.139.223 de novos casos de covid-19 em todo o Brasil. Em março de 2021, considerado um dos piores momentos da pandemia até agora, foram 2.197.488 de casos, quase um milhão a menos. A diferença é que, em março passado, foram registrados 66.573 óbitos, contra 8.033 neste janeiro, 58.540 casos a menos. Caso fosse mantida a mesma taxa de letalidade de março, o País teria registrado 96 mil mortes em janeiro. “Esse ponto mostra para gente que a vacina funciona na redução de óbitos”, diz.

Zavascki afirma que é indiscutível que a proporção de óbitos para o número de infectados pela covid-19 é menor na atual onda da variante ômicron do que nas ondas anteriores. Contudo, ele ressalta que não há dados conclusivos para dizer que a ômicron é menos grave que as outras variantes, uma vez que a menor mortalidade pode ser atribuída à vacinação.

“Vamos supor que ela tenha uma predisposição a ter menos casos graves, uma coisa é no nível individual, outra coisa é no nível coletivo. Então, tu tem uma proporção menor de pessoas que vão ter a pneumonia e ficar com problemas de oxigenação. Mas o número de pessoas infectadas é incomparavelmente maior e isso acaba gerando também um impacto maior, porque muita gente vai acabar sofrendo”, diz.

Para ele, houve precipitação de parte da comunidade científica e da imprensa ao divulgar que a ômicron é menos grave que as variantes anteriores. “Não havia grandes conclusões e a gente estava avaliando os casos acontecendo em pacientes vacinados, com a vacina protegendo do agravamento. Então, não era necessariamente a variante”, diz.

Médico infectologista e mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ronaldo Hallal ressalta também que, embora a ômicron aparentemente não cause comprometimento grave como as variantes anteriores, ela é altamente transmissível, o que mantém a situação como de risco, especialmente para pacientes dos chamados grupos de risco. “E tem um cenário muito fértil para a sua disseminação que são as pessoas não vacinadas, que têm a maior possibilidade de transmissão e de contrair a doença na forma grave”, diz.

O primeiro caso da variante ômicron no Rio Grande do Sul foi confirmado em 3 de dezembro passado. No dia 7 de janeiro deste ano, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que a variante já respondia por 95% das amostras do coronavírus sequenciadas no Estado.

Para Ronaldo Hallal, governos já deveriam ter implementado medidas para tentar controlar a atual onda. “Nós temos o contexto de que para governos e boa parte da população é como se a pandemia já tivesse passado e esse é um território fértil para a ampla circulação da ômicron por aqui. O que é interessante é que não se fala mais em intensificar medidas de isolamento e de prevenção, como se falava em 2020 e em uma parte de 2021. Então, acaba sendo um território para a disseminação da ômicron, já que ela é muito transmissível”, diz.

Hallal afirma que a melhor forma de controlar a atual variante seria semelhante a das ondas anteriores, com restrição da mobilidade social, de aglomerações e de atividades presenciais. Ele reconhece a dificuldade de implementar novas medidas do tipo, mas defende que os governos deveriam ter se preparado melhor para o cenário. Por exemplo, com aumento da testagem e distribuição de insumos de prevenção, como máscaras.

“Nós vimos recentemente a falta de testes, uma perda completa de acesso a testagens. As medidas de isolamento após teste positivo também não têm sido adotadas, pelo contrário, os novos protocolos reduzem o tempo de isolamento. É bem verdade que a transmissibilidade reduz após o sétimo dia, mas ela não é eliminada e há uma variação biológica. Acho que deveríamos optar pela prudência e pelas medidas de controle da pandemia do que pela flexibilização”, diz.

Para Zavascki, uma situação que diferencia a atual onda de covid-19 das anteriores é o fato de que, até o momento, nenhuma autoridade de saúde de capitais, estados ou do governo federal adotou qualquer ação para tentar frear a disparada de casos. “Antes a gente discutia se estávamos fazendo o suficiente, mas dessa vez não estamos fazendo nada. A vida está normal, as coisas vão acontecendo, não há uma preocupação e nem um tipo de campanha para as pessoas se protegerem”, diz.

O infectologista avalia que, em parte, isso ocorre pelo desconhecimento. Outro fator que estaria influenciando seria o “cansaço” das medidas restritivas, o que levaria as pessoas a aceitarem conviver com os riscos de infecção. Porém, ele questiona se isso também não é resultado do desconhecimento dos riscos da infecção, uma vez que também foram reduzidas as campanhas públicas de conscientização e informação sobre os riscos da variante ômicron. “Se fossem bem instruídos, talvez não correriam os riscos, mas não dá para negar que é uma opção da sociedade viver assim”, avalia.

Hallal pondera que as restrições estão sendo apenas adotadas quando “impostas pelo vírus”, quando serviços deixam de funcionar temporariamente porque trabalhadores se contaminaram. “Lockdown parece ser uma expressão que não pode mais ser pronunciada. Já temos razões fortes suficientes para determinar lockdown”, diz.

O cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt diz que, nos últimos dias, está ocorrendo uma aparente desaceleração na velocidade de crescimento da atual onda, puxada especialmente pelas regiões Sul e Sudeste.

Contudo, ele pondera que os dados disponíveis não permitem dizer se essa desaceleração significa que a onda atingiu um pico, o que poderia anteceder uma rápida queda, ou se alcançou um platô. “Se chegamos no limite da nossa capacidade de testagem, vai dar um platô, não vai dar um pico. Vai continuar alto, mas estabilizado”, diz.

Schrarstzhaupt pondera que qualquer previsão dependeria de indicadores de positividade — proporção de resultados positivos a cada teste realizado –, mas pontua que não existem dados disponíveis que deem uma dimensão da situação a nível nacional. “Se a positividade cai junto, então está caindo mesmo. Se a positividade se mantém alta, então provavelmente é falta de teste”, diz.

Por outro lado, salienta que a pesquisa realizada pela Universidade de Maryland a partir do reporte de sintomas no Facebook indica que o pico recente de postagens a respeito da covid-19 na rede social foi alcançado em 18 de janeiro, sendo registrada uma tendência de reversão na curva desde então.

Na África do Sul, país em que a variante ômicron foi identificada, a curva de casos de covid-19 foi marcada por um crescimento quase vertical, seguida por uma forte queda após atingir o pico. O comportamento da ômicron na África do Sul gera a expectativa de que a onda atual brasileira pode ter uma curva semelhante, o que indicaria uma forte redução de casos nas próximas semanas e meses.

Alexandre Zavascki diz que não apostaria as fichas que a curva vai descer rapidamente, porque, em ondas anteriores, outros países também registraram quedas acentuadas de infecções e isso nunca aconteceu no Brasil. “A queda sempre foi mais lenta, então é difícil dizer que vai se repetir. A gente torce para que caia rapidamente, mas pode acontecer de termos um cenário diferente e uma queda mais lenta”, diz.

Ronaldo Hallal lembra ainda que projeções anteriores indicavam que a pandemia de covid-19 poderia já ter acabado em 2021 por ter sido alcançada a imunidade coletiva, combinando a vacinação com as pessoas que já se contaminaram, o que reduziria a parcela da população ainda suscetível a se contaminar pela doença e o vírus passaria a ter grandes dificuldades de se multiplicar. Contudo, em razão do escape vacinal e do escape imunológico — possibilidade de vacinados e pessoas que já contraíram coronavírus se contaminarem novamente –, diz que não é possível, neste momento, qualquer previsão sobre o comportamento futuro do vírus. Especialmente pelo fato de que novas variantes podem surgir.

Schrarstzhaupt também avalia que é perigoso tentar projetar o comportamento da doença no Brasil a partir do exemplo de outros países. “Essa velocidade de queda é multifatorial, depende da quantidade de suscetíveis, das vacinas utilizadas, do intervalo entre as vacinas, da pirâmide etária, da mobilidade da população, etc. Por exemplo, a África do Sul, que caiu super rápido na onda da ômicron, também caiu super rápido nas outras ondas. Tu pega o Reino Unido, caiu super rápido, mas, quando tu abre os dados por faixa etária, percebe que está caindo acima de 20 anos e subindo nas crianças de 0 a 17. Tu soma tudo e divide, está em queda, mas está subindo entre os mais vulneráveis”, diz. O Reino Unido começou a vacinar crianças de 5 a 11 anos com comorbidades apenas nesta semana.

Ele diz ainda que, na contramão do exemplo sul-africano, está a Áustria, que foi o primeiro país europeu a ter uma grande onda da variante ômicron. O país realizou um lockdown para não vacinados e a curva de casos teve uma queda rápida, mas logo voltou a subir em um patamar ainda maior. “Subiu rápido, caiu rápido e dias depois estourou uma onda o dobro da anterior da ômicron, que já era gigante. Então, como a gente pode prever?”, questiona o cientista de dados.

Schrarstzhaupt alerta ainda que os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), o que inclui casos graves de gripe e outras doenças respiratórias, costumam subir a partir do final de fevereiro e do início de março, atingindo um pico nos meses de junho e julho e começando a cair a partir de agosto. Ele diz que, em 2020, os casos de covid-19 acompanharam a curva de de SRAG, mas iniciaram uma alta no final do ano, seguida por uma nova queda em janeiro, que precedeu a explosão de casos a partir de fevereiro e março de 2021. No final do ano passado, a variante ômicron voltou a puxar para cima a curva de casos de covid-19.

O cientista de dados diz que é preciso esperar até a metade do mês de março para saber se os casos de covid-19 irão acompanhara mais uma vez a tendência das demais síndrome respiratórias. Se isso ocorrer, teríamos uma nova onda de crescimento a partir de março. “Se até lá, a gente não ver um repique na tendência, aí pode ser que tenhamos esgotamento de suscetíveis e uma imunidade maior. Se não, provavelmente vai acontecer o que sempre aconteceu (aumento de síndromes respiratórias)”.

Por Luís Gomes (luisgomes@sul21.com.br)

Foto/Crédito: kjpargeter – br.freepik.com (imagem licenciável)

Fonte: https://sul21.com.br/noticias/saude/coronavirus/2022/02/especialistas-dizem-que-explosao-de-mortes-por-covid-exige-medidas-nao-estamos-fazendo-nada/

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