segunda-feira, 6 dezembro, 2021
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“Mentira descarada”: médico critica abordagem de Bolsonaro sobre a pandemia em discurso na ONU

Presidente disse que é contra vacinação obrigatória, admitiu ter feito “tratamento inicial” e criticou isolamento social

Único chefe de Estado do G-20 que não se vacinou, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (sem partido) nunca incentivou a imunização e fez propaganda de medicamentos sem eficácia, como a cloroquina e a hidroxicloroquina. Mesmo assim, aproveitou o discurso na 76ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para valorizar os números da vacinação no Brasil.

Médico de família e integrante da Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares (RNMMP), Aristóteles Cardona define o discurso do presidente brasileiro como “mentira descarada”.

Bolsonaro disse que sempre defendeu “combater o vírus e o desemprego com a mesma responsabilidade.”

Para o presidente, “as medidas de lockdown deixaram um legado de inflação”, e pessoas foram “obrigadas a ficar em casa” por prefeitos e governadores.

“A política do governo federal era que o vírus se disseminasse o mais rápido possível, para que a gente pudesse atingir o que eles acreditavam que seria a ‘imunidade de rebanho’“, lembra Cardona. 

“Então, nunca houve defesa de combate ao vírus em nosso país”, acrescenta.

Jair Bolsonaro valorizou os números da vacinação no Brasil, embora nunca tenha feito um pronunciamento incentivando os cidadãos a se imunizarem. 

“Fiz tratamento inicial [contra a covid]. Nosso governo é contra a vacinação obrigatória”, ressaltou o presidente.

Aristóteles Cardona diz que Bolsonaro citou dados de vacinação apenas entre a população adulta, para impressionar a audiência.

“A gente precisa fazer cálculos da população como um todo”, adverte.

“O discurso se torna mentiroso porque, quem escuta de fora, pode até ter a impressão de que houve uma política ativa, por parte do governo, de compra de vacinas, imunização. E a gente sabe que nada disso aconteceu.”

Sem eficácia

Sobre o “tratamento inicial”, que teria sido feito por Bolsonaro, o médico de família faz uma crítica contundente:

“Se já era vergonhoso falar disso no ano passado, quando surgiram as primeiras notícias sobre o tema, agora é ainda pior. O mundo já sabe que esses medicamentos, como cloroquina, não são eficazes contra a covid. Abrir a boca para defender isso em 2021 é lamentável.”

Com 591 mil óbitos, o Brasil é o segundo colocado no ranking mundial de mortes por covid, depois dos Estados Unidos, que somam mais de 673 mil óbitos.

Até o momento, 38% da população brasileira está totalmente imunizada e cerca de 67% tomaram a primeira dose.

Foto/Crédito: Carolina Antunes/PR (FOTOS PÚBLICAS)

Edição: Vivian Virissimo

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