Morreu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, a professora, pesquisadora e ativista do movimento negro Dra. Zélia Amador de Deus, uma das principais referências da luta antirracista no Pará, na Amazônia e no Brasil. Ao longo de mais de quatro décadas, Zélia construiu uma trajetória marcada pela defesa da educação, dos direitos da população negra e da construção de uma sociedade livre do racismo.
Nascida em 24 de outubro de 1951, no território quilombola de Mangueiras, em Salvaterra, no Marajó (PA), Zélia levou para sua trajetória as raízes de uma família negra trabalhadora. Depois da migração da família para Belém, cresceu na periferia da capital, no bairro da Sacramenta.
Filha da empregada doméstica Doralice Amador, Zélia não conviveu com o pai biológico. Teve como importantes referências os avós maternos, Francisca Amador de Deus, lavadeira de roupas e a quem também chamava de mãe, e Manuel Faustino de Deus, pedreiro que trabalhou em projetos de saneamento básico.
Foi dentro de casa que recebeu, desde cedo, uma educação voltada à valorização da identidade negra. Da avó, ouviu o ensinamento de fortalecer a autoestima e o orgulho de ser negra. Toda sua formação básica foi realizada em escolas públicas.
A atuação política começou ainda na juventude, no movimento estudantil secundarista. Em 1968, participou da fundação da Frente de Ação Secundarista Paraense (Faspa), em um período marcado pela intensificação da repressão da ditadura civil-militar e pela mobilização estudantil.
Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA), em 1974, Zélia seguiu a carreira acadêmica, com mestrado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutorado em Ciências Sociais. Em 1980, esteve entre as fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), entidade que se tornou uma das referências da organização do movimento negro no estado e da luta pela garantia e titulação dos territórios quilombolas.
Uma trajetória marcada pela educação e pela luta
Na UFPA, onde construiu mais de quatro décadas de trajetória como professora e pesquisadora, Zélia também ocupou espaços de gestão e liderança. Foi vice-reitora da Universidade entre 1993 e 1997 e se aposentou em 2024.
Em 2019, recebeu o título de Professora Emérita da UFPA, em reconhecimento à sua contribuição para a universidade e para a sociedade. A homenagem teve ainda um significado histórico: Zélia foi a primeira mulher negra a receber o título de Professora Emérita da instituição. A cerimônia de outorga ocorreu em março de 2020 e reuniu movimentos sociais, estudantes indígenas, quilombolas e africanos.
Sua atuação ultrapassou os muros da universidade. Zélia teve participação na formulação e defesa de políticas de ações afirmativas e cotas raciais no ensino superior e representou o Brasil, em 2001, na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas da ONU, realizada em Durban, na África do Sul.
Pesquisadora e escritora, publicou o livro Caminhos trilhados na luta antirracista e recebeu o Prêmio de Direitos Humanos da BrazilFoundation, entre outros reconhecimentos por sua atuação.
Sua trajetória também foi marcada pela defesa de que o enfrentamento ao racismo não é responsabilidade apenas da população negra ou dos meios acadêmicos, mas de toda a sociedade. Em uma de suas falas, sintetizou:
“Quem tem que discutir racismo é toda sociedade brasileira, que continua sendo racista, mas que não admite.”
Um legado que permanece
A morte de Zélia Amador de Deus deixa uma lacuna na educação, na universidade e, sobretudo, na luta antirracista. Mas deixa também um legado construído por décadas de organização, pesquisa, mobilização e defesa de direitos.
Para o Sindjuf-PA/AP, sua trajetória representa uma importante contribuição para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e livre do racismo. O Sindicato se solidariza com familiares, amigos, estudantes, colegas de universidade, companheiros e companheiras de luta e com todos que tiveram suas vidas atravessadas pelo trabalho e pelo exemplo de Zélia.
Zélia Amador de Deus, Presente!
*Fontes: UFPA, ancrestralidades e Alma Preta





