99 anos de Adélia: uma vida que ajudou a construir a história da luta sindical das trabalhadoras e dos trabalhadores do PJU no Pará e Amapá

São 99 anos de vida, histórias, aprendizados e lutas. Quase um século atravessando profundas transformações no Brasil e no mundo. É assim a trajetória de Maria Adélia Mercês Oliveira, a nossa querida Adelinha: professora, servidora pública, advogada, militante e uma das mulheres que ajudou a construir a história da organização sindical das servidoras e dos servidores do Poder Judiciário Federal no Pará e Amapá.

Celebrar Adélia é mais do que recordar uma trajetória extraordinária. É reconhecer um legado construído ao longo de décadas e que continua vivo na história do nosso Sindicato e nas lutas da categoria.

Aposentada, sim. Inativa, jamais

Em 1980, Adélia se aposentou da Justiça do Trabalho da 8ª Região. A aposentadoria, porém, nunca significou afastamento. Ao contrário: ela continuou atuando na vida política e sindical, participando de debates, atividades e mobilizações em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras.

Uma vida dedicada à luta coletiva

Adelinha esteve entre as fundadoras do Sintra 8ª e participou ativamente do processo de unificação que resultou na criação do Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal nos Estados do Pará e Amapá, Sindjuf-PA/AP. Sua trajetória, portanto, se confunde com a própria história da organização da categoria.

Para o atual coordenador de Comunicação do Sindjuf-PA/AP, Ribamar França, que conheceu Adélia ainda na década de 1980, sua atuação sempre foi marcada pela disposição de estar presente onde a categoria precisava, especialmente nos momentos mais difíceis.

“Conheci a Dra. Adélia em 1986, quando lutávamos pela unificação da categoria. Ela era coordenadora jurídica do Sintra 8ª e já tinha uma trajetória de luta em defesa dos trabalhadores. Naquela época, também advogava para a CUT.

Nossa grande convivência aconteceu durante as greves e manifestações da categoria, das quais ela sempre participou. Nunca fugiu à luta nem ao enfrentamento dos grandes e poderosos do Tribunal em defesa dos servidores perseguidos pelas administrações.

Viajou até locais longínquos para ouvir os companheiros que precisavam do Sindicato. Em Brasília e em eventos nacionais da Fenajufe, sempre esteve presente, representando a categoria.”

A participação de Adélia na construção e na reorganização das entidades que representavam a categoria também é destacada pelo coordenador-geral do Sindjuf-PA/AP, Waldson Silva. Ele conheceu Adélia em 1997, durante a campanha de unificação dos sindicatos.

“Na época, formamos uma coordenação composta por mim, por ela, Ribamar, Alice, João Carlos e Ângelo.

A convivência com Adélia marcou minha vida pela experiência e pela disposição que sempre teve para a luta, para participar de eventos e atividades, dentro e fora do estado. Também lembro da grande luta que ela, ao lado de Alice e de outros companheiros e companheiras, travou para reestruturar o antigo Sintra 8ª, que enfrentava uma situação de grande dificuldade. Foram verdadeiros esteios na reorganização da entidade e na retomada da luta que, mais tarde, culminou na unificação sindical.

Pequenas na estatura, mas grandes guerreiras, Adélia e Alice foram fundamentais nessa construção.

A grande lição que Adélia deixa às novas gerações é a de uma militância exemplar e constante. Sua trajetória deve ser conhecida e servir de inspiração para todos e todas que chegam à luta sindical.

Para ela, desejo mais anos de vida, saúde, felicidade e muitos momentos de convivência conosco. Que continue entre nós com essa lucidez que tanto nos admira e surpreende.”

Alice Romana, também filiada ao extinto Sintra 8ª e fundadora do Sindjuf-PA/AP, conhece de perto o espírito aguerrido de Adelinha. Companheira de muitas lutas, ela relembra, em uma crônica escrita por ela mesma, um dos episódios que marcaram sua trajetória ao lado de Adélia. Leia a crônica ao final do texto.

Essa disposição para a luta é uma das marcas que mais aparecem nos depoimentos de quem convive com Adélia. Para muitos e muitas, ela se tornou quase sinônimo da própria organização coletiva.

A servidora do TRT-8, Cristina Gemaque e filiada ao Sindjuf-PA/AP, que acompanha sua trajetória desde o início da vida funcional, resume essa relação entre Adelia e o Sindicato:

“Eu me sindicalizei assim que entrei no TRT-8, em 1995, porque, embora pareça clichê, é verdade que a união faz a força. A D. Adélia é quase sinônimo de Sindicato. Desde as primeiras lutas, eu a via panfletando, indo aos setores ou permanecendo junto conosco durante as greves.

Há alguns meses, ela adquiriu meu livro, *Diário de uma desconhecida*, e escrevi a seguinte dedicatória: ‘Sua vida daria um livro de vários volumes, e seria necessária uma enorme biblioteca para guardá-los. Esses livros prescindiriam de autógrafo porque a senhora assinou, com seu amor, o coração de todos nós’.”

A Adelinha da família

A militante incansável e a mulher que ajudou a construir a história sindical da categoria também é a Adelinha amada pela família.

Avó de muitos netos, ela fala com orgulho de Patrícia Oliveira, que seguiu seus passos e também se tornou servidora do TRT-8. Para a neta, a atuação sindical e política da avó sempre esteve presente de forma muito natural no ambiente familiar.

“Desde o final da década de 1980, quando passou a participar ativamente do movimento sindical e ajudou a fundar o Sintra 8ª, essa luta se tornou parte importante da sua história e, consequentemente, da história de nossa família.

Acompanhamos seu engajamento, sua preocupação com os direitos dos servidores do Poder Judiciário e sua disposição para lutar por melhorias para a categoria. Ela participava efetivamente de mobilizações, plenárias e de todo e qualquer evento que pudesse contribuir para a valorização da carreira.

Guardo com muita emoção as lembranças de sua participação também nas Olimpíadas da Justiça do Trabalho, em que integrava os times de dominó e futebol de mesa..”

Patrícia também lembra uma das grandes paixões da avó: o Paysandu.

“Uma história que sempre lembramos e que representa muito bem sua personalidade são as aventuras e viagens para acompanhar o time do coração. O futebol sempre foi uma de suas grandes paixões.”

Para a família, celebrar os 99 anos de Adelinha é, acima de tudo, uma oportunidade de celebrar uma vida compartilhada.

“Celebrar os 99 anos de Dona Adélia é motivo de imensa emoção e gratidão para toda a nossa família. É uma bênção divina poder comemorar uma vida tão rica em lutas, conquistas e afetos ao lado de alguém que foi, e continua sendo, tão importante para todos nós.

Mais emocionante ainda é poder celebrar esta data com ela lúcida, presente e compartilhando conosco suas lembranças e sua história.”

Adélia dos amigos

A história de Adélia também é marcada por relações construídas ao longo da vida e por uma generosidade que ultrapassa os espaços da militância, como menciona Sara Amaral, servidora aposentada do TRT8.

“DRª ADÉLIA, chegar aos 99 anos com a lucidez, a inteligência, a disposição e a alegria de viver que você demonstra é, por si só, uma conquista extraordinária.

Advogada, mulher de personalidade forte e inteligência admirável, um exemplo para muitas mulheres, você construiu uma trajetória que merece ser reconhecida e celebrada. Mas talvez sejam as qualidades que não aparecem em nenhum currículo que tornem você ainda mais especial: sua humanidade, sua generosidade, sua capacidade de ouvir, aconselhar e estender a mão quando alguém precisa.

Eu tenho uma gratidão muito especial por você. Em tantos momentos da minha vida, você me auxiliou em questões pessoais, com sua experiência, seu discernimento e aquela maneira tão próprios de enxergar as situações. Muitas vezes, uma conversa com você foi suficiente para trazer uma nova perspectiva, uma palavra de coragem ou simplesmente a tranquilidade de saber que alguém estava ali. Parabéns Drª ADÉLIA pelos seus 99 anos!

Que nunca lhe faltem amigos para compartilhar a vida, motivos para sorrir, boas histórias para contar e, principalmente, essa sua maneira inteligente, humana e especial de estar no mundo. Feliz aniversário!”

Uma história que ultrapassa fronteiras

A contribuição de Adélia para a organização dos servidores do Judiciário Federal também é reconhecida muito além do Pará e do Amapá.

Para Lucena, ex-dirigente da Fenajufe e atual diretora do Sisejufe-RJ, a trajetória de Adélia também representa a caminhada de tantas mulheres que ajudaram a construir o movimento sindical e, muitas vezes, não tiveram suas histórias devidamente reconhecidas.

“Quando olho para a trajetória da Dra. Adélia, penso também na caminhada das mulheres. Uma mulher que, em seu tempo, esteve presente, ajudou a fundar um Sindicato, assumiu responsabilidades e ocupou espaços de luta e decisão. Para mim, como mulher e dirigente sindical, isso tem um significado muito especial.

Aos 99 anos, ela é parte viva da nossa história. Acho que ela nos ensina, sobretudo, que a luta coletiva vale a pena e que ninguém constrói nada sozinho. Direitos que hoje temos foram conquistados porque muitas pessoas vieram antes de nós, se organizaram e não desistiram. E é muito bonito que, mesmo depois de tantos anos, ela continue próxima e participando do Sindicato. É uma vida inteira acreditando no coletivo.

A história de Adélia precisa ser contada. Precisamos contar a história das mulheres que ajudaram a construir nossas lutas. Muitas vezes, elas estiveram lá, participaram, organizaram e lideraram, mas seus nomes nem sempre receberam o mesmo destaque. Contar a história da Dra. Adélia é também reconhecer essas mulheres e fazer com que as mais jovens saibam que outras abriram caminhos antes de nós.”

O sentimento de reconhecimento e inspiração é ecoado por Mara Weber, sindicalista do Sintrajufe/RS, que destaca o privilégio de ter compartilhado parte da história dessa lutadora:

“Para mim, ter compartilhado um pouco da história dessa lutadora é uma honra. Dona Adélia esteve sempre na boa luta e serve de farol pra todas nós mulheres. Ela, com sua coerência e força, abriu caminhos para outras mulheres. Muito orgulho dessa mulher guerreira, amiga e companheira”.

Para Mara, em um momento em que “o capitalismo lança o canto da sereia do individualismo”, o legado de Dona Adélia deixa uma lição definitiva para as novas gerações de dirigentes e servidores: é a luta coletiva que constrói vitórias consistentes.

A sindicalista também ressalta a importância de preservar essas memórias:

“As histórias de vida das nossas lutadoras e lutadores precisam ser contadas para que entendamos que muitas e muitos lutaram antes de nós, nos deixaram um legado e um caminho para prosseguirmos lutando por um mundo melhor. A luta não começou agora e não terminará amanhã, pois ela se ampara na memória de quem veio antes e se esperança no presente em cada uma e cada um que abraça essa memória e segue o exemplo de coragem na defesa de uma vida melhor para a Classe Trabalhadora”.

Por fim, Mara deixa sua mensagem de felicitações e carinho pelos 99 anos de Adélia:

“Dona Adélia, querida companheira, és pra mim exemplo, inspiração e força de mulher lutadora. Obrigada por existir. Desejo um feliz aniversário cheio de amor e saúde. Me sinto honrada de poder fazer parte dessa história de vida tão bonita. Um beijo no coração”.

Neste aniversário, o Sindjuf-PA/AP celebra não apenas a longevidade de uma de suas fundadoras, mas a força de um legado que permanece vivo em cada luta da categoria.

Parabéns, Adelinha!

 

Crônicas da luta sindical – Quem manda lutar?

Por Alice Romana 

Nos idos do primeiro semestre de 1997, um pequeno grupo de resolutos filiados percorria a calçada da Travessa D. Pedro I, no bairro do Umarizal, enfrentando o sol abrasador daquela tarde em Belém do Pará, a caminho da sede do sindicato da categoria dos trabalhadores do TRT8ª Região, que ficava em uma residência alugada próxima da esquina da Municipalidade.

No dia anterior, haviam debatido com preocupação o fato de que, já próximo de encerrar o período regimental para a convocação de eleições da entidade, o atual presidente nada havia divulgado e resolveram tratar do assunto diretamente com ele. Recebidos na sala da residência adaptada como recepção da entidade, enveredaram pelo corredor estreito que, após passar pelas entradas dos quartos utilizados pelos setores administrativo e jurídico do sindicato, findava na porta da sala do presidente.

Em fila indiana encabeçada pela lendária Dra. Adélia, que participara da fundação de várias entidades da categoria, entre elas a ASTRA8ª e o próprio SINTRA8ª, os componentes do grupo ostentavam um tenso semblante porque a reputação do presidente do sindicato não era de quem reagia amigavelmente a provocações. Conhecido por uma alcunha que remontava a um passado rebelde na juventude e por um porte físico mais avantajado do que a média, podia responder de forma inesperada àquela visita da tarde.

Aberta a porta e deparando-se com o grupo, o presidente levantou-se abruptamente e disparou com um sorriso: “Adelinha, que prazer revê-la”.

A festiva acolhida, contudo, não desfez um milímetro da feição determinada de Adélia que, chamando-o pelo nome completo (ela nunca usa apelidos), perguntou o porquê de, até aquele momento, não ter sido dado início ao período eleitoral da entidade, obtendo como resposta a justificativa de que o presidente nem sabia como fazer isso, ao que Adélia redarguiu: “Eu sei”.

O presidente então fez um gesto com os braços indicando uma mesa ao lado, com teclado e monitor, dizendo: “Então, fique à vontade. Você é que manda, Adelinha”.

E assim foi. O grupo acercou-se da mesa, sob a liderança da Dra. Adélia, e dali saímos com o cronograma definido e o Edital de Convocação da Assembleia para Eleição da Comissão Eleitoral, impresso, assinado pelo presidente e pronto para divulgação na categoria, nos termos do regimento do sindicato.

A eleição ocorreu, o grupo desbravador constituiu chapa única (porque a diretoria não quis formar chapa), alcançou o quórum mínimo para eleição e, na primeira reunião da nova diretoria, discutiu a unificação da luta, com a proposta de criação do Sindicato dos Trabalhadores de todo o Judiciário Federal no Pará e Amapá, que já vinha sendo debatida há anos pelo sindicato-irmão da JE/PA.

A partir daí, as pedras rolaram (a maioria em cima das cabeças dos proponentes da luta unida), mas a consciência de classe prevaleceu e, no dia 31/01/1998, iniciou-se o histórico I Congresso Unificado da categoria, que decidiu pela fundação do SINDJUF-PA/AP.

Hoje, passados 28 anos da fundação, o SINDJUF-PA/AP continua firme na luta, enfrentando a crise mundial que se abate sobre o sindicalismo, com as forças progressistas açoitadas pela expansão (de novo) do ideário fascista da extrema-direita, mas sempre com a certeza de que não há outro caminho, a não ser lutar e lutar. E por quê?

Porque Adelinha mandou.

 

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