quarta-feira, 28 janeiro, 2026
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DEGRADAÇÃO EM DOBRO: No Brasil, 57% dos casos de trabalho escravo acontecem em atividades que devastam o ambiente

Dados de 30 anos apontam trabalhadores em condições degradantes na pecuária, mineração, carvoarias e monoculturas

Em junho de 2025, três homens foram resgatados em uma fazenda em São Félix do Xingu, no Pará, em condição de trabalho análogo à escravidão. Contratados para trabalhar no desmate de uma área para abertura de pastagem, eles eram vítimas de ameaças, não tinham acesso à água potável nem a equipamentos de segurança do trabalho e dormiam em um chiqueiro, espaço dividido com os porcos.

De 1995 a 2025, a Comissão Pastoral da Terra contabilizou 2.692 casos como esse, de trabalhadores resgatados em atividades de desmatamento, o que corresponde a 4% do total de pessoas encontradas em condições análogas à escravidão no Brasil.

Somada com outras atividades, como a pecuária, carvoaria, mineração e o cultivo de cana-de-açúcar, a porcentagem de registros de trabalho escravo relacionadas a atividades que provocam forte degradação ambiental chega a 57% dos 67.058 trabalhadores resgatados nos últimos 30 anos, considerando as atividades do meio urbano e rural.

No topo da lista, está a pecuária, que corresponde a 26% dos casos de trabalhadores resgatados, de acordo com a CPT. Essa é, também, a atividade mais devastadora para as matas brasileiras. Dados da plataforma Mapbiomas indicam que a Amazônia perdeu 9 milhões de hectares de florestas para as pastagens nos últimos dez anos.

“Atividades que envolvem supressão vegetal ilícita normalmente estão ligadas a casos de submissão de trabalhadores a condições análogas à escravidão”, informa o Ministério Público do Trabalho (MPT), por meio de nota. Os números, segundo o MPT, podem ser maiores devido à subnotificação e às dificuldades na fiscalização nessas áreas, frequentemente de difícil acesso.

“A destruição do meio ambiente tem uma raiz relacionada com a questão do crime de trabalho escravo no Brasil”, alerta o assistente social Francisco Alan Santos Lima, que trabalha junto à CPT, acompanhando denúncias de trabalho escravo há 15 anos.

Foi ele quem recebeu o pedido de ajuda dos três trabalhadores isolados em uma fazenda em São Félix do Xingu. “Um deles, já de idade avançada, com seus 65 anos, adquiriu um problema de saúde. Além de derrubar a mata, ele soltava veneno com aquela bombinha”, conta Lima.

A aplicação do agrotóxico para preparar a área da pastagem era feita sem os equipamentos adequados, o que levou o trabalhador ao adoecimento. Os homens haviam saído do Maranhão, para onde conseguiram retornar após o resgate.

Poucos tempo depois, em agosto de 2025, outra fazenda em São Félix do Xingu foi alvo de uma ação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com o MPT e a Polícia Federal, resultando no resgate de 17 trabalhadores. Sem registro de trabalho e sem controle de jornada, eles viviam alojados embaixo de lonas e árvores. Um deles dormia em um galinheiro.

Segundo nota publicada pelo MPT, embora a fazenda dispusesse de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) novos, não eram fornecidos aos trabalhadores, que aplicavam veneno sem qualquer proteção.

Os dados da pastoral indicam São Félix do Xingu como o município paraense com mais registros de pessoas em condições de trabalho escravo, com 1.704 casos nos últimos 30 anos.

“É uma região com muitos casos, mas também com muito número de vítimas resgatadas nessa situação. A maioria na pecuária”, informa Lima.

São Félix é um lugar de números vultosos. O município, localizado no sul do Pará, tem o tamanho da Áustria e soma o maior rebanho bovino do país, com mais de 2 milhões de cabeças de gado. Isso representa uma média de 38 bois por habitantes.

Outras atividades

Depois da pecuária, que fica no topo da lista de atividades com registro de trabalho escravo, vem o cultivo de cana-de-açúcar, com 8% dos casos no período de 30 anos.

“Alguns programas de certificação tentam criar padrões de elegibilidade de cana sem desmatamento para tentar restringir um pouco essa prática. Mas ainda é bastante recorrente”, informa Marcelo de Aguiar Pereira, coordenador de Agro ESG do Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora), que soma 30 anos de trabalho na implementação de boas práticas no uso dos recursos naturais.

As carvoarias, atividade bastante poluente que utiliza madeira como matéria-prima, respondeu por 7% do total de caso em três décadas de levantamento.

Por fim, a reportagem do Brasil de Fato considerou ainda o setor da mineração, que responde a 2% do total de casos de trabalho escravo entre 1995 e 2025 e é uma das atividades mais devastadoras para a floresta. Dados do MapBiomas apontam que, nos pontos onde a floresta Amazônica foi reduzida, o uso do solo para mineração legal e ilegal cresceu em 1.063% entre 1985 e 2024.

As áreas remotas onde são realizadas essas atividades são um dos fatores favoráveis à exploração dos trabalhadores. Isolados, eles têm mais dificuldade de pedir ajuda, ou mesmo de serem vistos por outras pessoas, conforme explica a assistente social Brígida Rocha dos Santos, agente da CPT no Maranhão, que acompanha denúncias de trabalho escravo desde 2002.

Outro elemento, segundo ela, é a incidência de fiscalização nas áreas rurais, tanto no combate ao trabalho escravo quanto no desmatamento.

“Essas fiscalizações, tanto de combate ao trabalho escravo, quanto no âmbito ambiental, elas se dão muito mais frequentes na área rural, que é onde estão áreas de fazendas, de carvoarias, de mineração”, diz.

Outro dado do levantamento mostra que 10% dos trabalhadores em condição análoga à escravidão encontrados estavam prestando serviço nas lavouras temporárias, contudo o levantamento da pastoral não detalha que tipos de lavouras são essas, podendo ser soja, milho, algodão e outras culturas menos impactantes ao ambiente.

Na lista de categorias apontada pela CPT constam, no meio rural, desmatamento, pecuária, monocultivo de árvores, extrativismo vegetal, cana-de-açúcar, lavouras temporárias e permanentes, carvoarias e mineração. No meio urbano, as atividades estão separadas entre construção civil, confecção e outros.

Devastação da floresta e dos modos de vida

Conforme avançam contra as matas, as atividades devastadoras destroem também modos de vida de povos e comunidades tradicionais, como pescadores, ribeirinhos e indígenas. Apartados dos seus saberes e sem a fonte tradicional do seu sustento, essas populações ficam vulneráveis aos trabalhos degradantes.

“Isso irá impulsionar, por exemplo, as migrações forçadas para quem trabalha no campo”, avalia Lima, que cita o exemplo das populações ribeirinhas, vítimas da exploração das suas áreas de sustento e dos eventos climáticos extremos.

Com o avanço da crise climática, muitas dessas comunidades podem perder seus territórios. “Sofrerão com aumento dos níveis de rios ou a presença de empreendimentos que afetam o modo de vida dessas populações, empurrando eles para alternativas de trabalho muitas vezes precarizadas, que poderão ser em espaços rurais ou urbanos”, diz.

Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, no Pará, o Ministério Público do Trabalho lançou a publicação Mudanças Climáticas e a Proteção do Meio do Trabalho, que alerta para a relação entre crise climática e as relações de trabalho.

Em um dos artigos, que trata do trabalho escravo, a autora Luciana Paula Conforti destaca que “as atividades econômicas que adotam práticas ilegais, sem a devida repressão pelo Estado brasileiro, são o motor de uma combinação altamente nociva, que desumaniza trabalhadores e degrada o meio ambiente”.

Lista suja

No fim de 2025, o MTE publicou a atualização do Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, conhecido como “Lista Suja” – um documento público e mecanismo de transparência. A nova versão inclui 159 empregadores, sendo 101 pessoas físicas e 58 pessoas jurídicas, um aumento de 20% em relação à atualização anterior.

De acordo com a Auditoria Fiscal do Trabalho, os casos registrados nesta atualização ocorreram entre 2020 e 2025, totalizando 1.530 trabalhadores resgatados da exploração.

Entre as atividades econômicas, destacam-se a criação de bovinos, com 20 casos, os serviços domésticos, com 15, o cultivo de café, com nove e a construção civil, com oito. Do total, 84% das inclusões estão relacionadas a atividades econômicas do meio rural.

Para fazer uma denúncia

Denúncias de trabalho análogo à escravidão podem ser feitas de maneira sigilosa por meio do Sistema Ipê, lançado em 15 de maio de 2020 pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O Sistema Ipê é a única plataforma exclusiva para o recebimento de denúncias relacionadas a condições análogas à escravidão e está totalmente integrado ao Fluxo Nacional de Atendimento às Vítimas do Trabalho Escravo.

Editado por: Luís Indriunas
 
Foto/Crédito:  Divulgação/SIT, Brasil de Fato
 

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/28/no-brasil-57-dos-casos-de-trabalho-escravo-acontecem-em-atividades-que-devastam-o-ambiente/

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