A nova redação da NR-1, norma do Ministério do Trabalho e Emprego que redefine diretrizes de saúde e segurança no ambiente laboral e amplia as obrigações das empresas em relação à saúde mental dos trabalhadores, começou a valer a partir desta terça-feira (26).
A atualização coloca temas como burnout, assédio, estresse e violência no trabalho no centro das políticas institucionais e das responsabilidades organizacionais.
É nesse contexto que a escritora paraense Dora Anttunes lança o livro “Saúde emocional é lei”. A obra propõe reflexões sobre o adoecimento emocional no ambiente profissional e a necessidade de construção de relações de trabalho mais humanizadas.
Segundo a autora, o livro surgiu da percepção de que o sofrimento emocional deixou de ser um problema isolado e passou a fazer parte da rotina de milhares de trabalhadores.
“O adoecimento emocional deixou de ser um fenômeno isolado e passou a integrar silenciosamente a rotina de milhares de trabalhadores”, afirma.
A autora destaca que a atualização da NR-1 representa uma mudança histórica ao incluir oficialmente os chamados riscos psicossociais no campo das obrigações institucionais.
“O livro foi escrito exatamente nesse contexto de transição cultural e normativa”, explica.
A obra pode ser adquirida pela plataforma da UICLAP (Acesse o livro aqui).
Confira a entrevista concedida ao Sindjuf-PA/AP
1. O que motivou a senhora a escrever o livro “Saúde emocional é lei”?
Dora Anttunes: O que me motivou foi perceber que o adoecimento emocional deixou de ser um fenômeno isolado e passou a integrar silenciosamente a rotina de milhares de trabalhadores. Durante muito tempo, a saúde emocional foi tratada como uma questão secundária dentro das organizações, quase sempre reduzida ao campo do discurso motivacional.
No entanto, os índices crescentes de ansiedade, burnout, exaustão emocional e afastamentos demonstram que estamos diante de uma questão estrutural e coletiva.
Escrevi Saúde Emocional é Lei justamente porque compreendi que estávamos entrando em uma nova era das relações de trabalho, na qual o cuidado emocional deixaria de ser apenas uma escolha ética para também ocupar espaço de responsabilidade institucional e legal.
O livro nasce como um convite à consciência, à prevenção e à humanização das relações de trabalho.
2. Qual a principal mensagem que a obra busca transmitir aos trabalhadores e às instituições?
Dora Anttunes: A principal mensagem é que saúde emocional não pode mais ser tratada como um tema periférico dentro das organizações.
O livro busca mostrar que emoções, comportamento, cultura organizacional e ambiente de trabalho impactam diretamente a saúde humana, a produtividade, os relacionamentos e a sustentabilidade institucional.
Também procuro demonstrar que ambientes adoecedores geram consequências humanas, sociais e econômicas profundas.
Ao mesmo tempo, a obra reforça que ambientes emocionalmente saudáveis não representam fragilidade organizacional — representam maturidade, inteligência institucional e visão de futuro.
3. O lançamento ocorre justamente no período em que entra em vigor a nova NR-1. Essa coincidência foi planejada?
Dora Anttunes: Sim. O lançamento foi pensado estrategicamente para dialogar com esse momento histórico.
A atualização da NR-1 marca uma mudança extremamente significativa porque os chamados riscos psicossociais passam a integrar oficialmente o campo das obrigações organizacionais.
Isso desloca a saúde emocional do espaço simbólico para o centro das responsabilidades institucionais.
O livro foi escrito exatamente nesse contexto de transição cultural e normativa. Minha intenção foi contribuir para ampliar a compreensão sobre o impacto dessa mudança e estimular reflexões mais profundas sobre o futuro das relações de trabalho.
4. Burnout, ansiedade e estresse têm afetado cada vez mais trabalhadores. Na sua avaliação, por que o ambiente laboral se tornou tão adoecedor?
Dora Anttunes: Vivemos uma combinação extremamente intensa de fatores: excesso de produtividade, hiperconectividade, metas agressivas, insegurança emocional, relações fragilizadas e ausência de espaços seguros de escuta.
Muitas organizações ainda operam sob modelos que valorizam desempenho, mas negligenciam limites humanos.
Além disso, existe uma cultura silenciosa de normalização do sofrimento. Muitas pessoas aprenderam a funcionar cansadas, emocionalmente sobrecarregadas e constantemente pressionadas.
O problema é que o corpo e a mente não ignoram indefinidamente esse processo. O adoecimento emocional frequentemente surge como consequência de ambientes onde o ser humano deixou de ser percebido em sua integralidade.
5. Quais medidas concretas podem ajudar a prevenir o adoecimento emocional no ambiente de trabalho?
Dora Anttunes: A prevenção exige uma mudança cultural real permanente, e não apenas ações pontuais.
Algumas medidas fundamentais são:
- fortalecimento de ambientes de escuta segura;
- combate à comunicação abusiva;
- revisão de metas incompatíveis com a realidade humana;
- formação emocional de lideranças;
- políticas efetivas de prevenção ao assédio;
- incentivo ao equilíbrio entre vida pessoal e trabalho;
- programas contínuos de saúde emocional;
- e construção de culturas organizacionais mais humanizadas.
Também é importante compreender que prevenção emocional não significa ausência de exigência profissional. Significa criar ambientes onde desempenho e dignidade humana possam coexistir.
6. O serviço público, especialmente o Judiciário, é marcado por metas, pressão e sobrecarga. Que alertas a senhora faria para essa categoria?
Dora Anttunes: O primeiro alerta é que produtividade sem sustentabilidade emocional produz esgotamento coletivo.
O Judiciário exerce uma função social extremamente sensível e estratégica. Porém, quando metas excessivas, sobrecarga crônica e pressão constante passam a fazer parte da rotina institucional, o risco de adoecimento cresce significativamente.
É fundamental que a saúde emocional deixe de ser vista apenas como uma questão individual e passe a ser compreendida também como responsabilidade organizacional.
Nenhuma instituição se fortalece adoecendo silenciosamente seus próprios trabalhadores.
Cuidar da saúde emocional dos servidores não é enfraquecer a instituição. É proteger sua capacidade humana, ética e funcional.
7. Que avanços ainda precisam acontecer para que saúde mental deixe de ser tabu no mundo do trabalho?
Dora Anttunes: Ainda precisamos avançar muito na desconstrução da ideia de que sofrimento emocional representa fragilidade.
Muitas pessoas continuam adoecendo em silêncio por medo de julgamento, desvalorização profissional ou estigmatização.
Também precisamos superar modelos de gestão baseados exclusivamente em pressão e desempenho numérico.
A entrada dos riscos psicossociais na NR-1 representa um avanço importante porque transforma a saúde emocional em tema institucional legítimo, auditável e oficialmente reconhecido.
Mas a verdadeira transformação acontecerá quando o cuidado emocional deixar de ser tratado como tendência passageira e passar a integrar permanentemente a cultura das organizações.





