Enquanto Senado e Câmara ainda discutem o fim da escala 6×1, redes de pelo menos 5 estados relevantes adotam jornadas com 2 folgas semanais para enfrentar a escassez de mão de obra e reduzir a rotatividade.
A realidade vai se impondo e a mudança já começou nesse segmento que emprega muitos trabalhadores. Trata-se de relação trabalhista intensa, que exige muitos dos trabalhadores.
E o debate sobre o fim da escala de 6 dias de trabalho para 1 de descanso (6×1) continua mobilizando o Congresso Nacional, onde a redução da jornada semanal para 40 horas e a adoção da escala 5×2 ainda dependem da conclusão da tramitação legislativa. No entanto, parte do setor supermercadista decidiu não esperar.
Em movimento que ganha força no varejo alimentar, grandes redes supermercadistas já começaram a substituir a tradicional escala 6×1 por modelos que garantem 2 dias de folga semanais aos trabalhadores, sem redução salarial.
A mudança é impulsionada menos por razões ideológicas e mais por necessidade prática: a crescente dificuldade para contratar e reter funcionários em um dos segmentos que historicamente apresentam os maiores índices de rotatividade do mercado de trabalho brasileiro.
O fenômeno ocorre em contexto de desemprego mais baixo, ampliação das oportunidades de ocupação e disputa cada vez mais intensa por trabalhadores qualificados.
De São Paulo ao Distrito Federal
O movimento começou a ganhar escala em São Paulo e Minas Gerais, mas já se espalha para outras regiões do País.
Em São Paulo, grupos como Savegnago e Paulistão Atacadista figuram entre os pioneiros na substituição da escala 6×1 pela 5×2, associando a mudança à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e à retenção de talentos.
Em Minas Gerais, o Grupo Supernosso ampliou para dezenas de lojas próprias e da bandeira Apoio Mineiro projeto-piloto que previa 2 folgas semanais. O Supermercados BH também aderiu ao modelo, enquanto o Verdemar foi além, implementando formatos que reduzem a carga horária mensal e ampliam os períodos de descanso.
No Espírito Santo, a mudança vem sendo liderada pelo Grupo Coutinho, controlador das bandeiras Extrabom, Extraplus e Atacado Vem. O projeto começou em unidades da Grande Vitória e avançou para cidades do interior, como Colatina.
A expectativa é beneficiar cerca de 5 mil trabalhadores. A empresa decidiu absorver os custos operacionais da mudança, apostando na melhoria das condições de trabalho como ferramenta de atração e retenção de profissionais.
No Distrito Federal, o destaque é o Atacadista Super Adega. A rede iniciou a adoção da escala 5×2 na unidade do Guará 2 e vem expandindo gradualmente o modelo para as demais lojas, incluindo a nova unidade de Samambaia. A empresa transformou as 2 folgas semanais em diferencial competitivo, utilizando o benefício como argumento de recrutamento e valorização profissional.
O Rio de Janeiro também registra experiências em andamento. Redes regionais como o Supermercado do Frade e o Grupo Uni-X iniciaram a implementação da nova jornada em unidades localizadas principalmente na Região dos Lagos e no litoral fluminense.
Escassez de mão de obra muda a lógica empresarial
Durante décadas, a escala 6×1 foi considerada praticamente inevitável no setor supermercadista devido ao funcionamento contínuo das lojas. A mudança em curso revela alteração importante nessa lógica.
Empresas passaram a enxergar o descanso ampliado como instrumento para reduzir desligamentos, diminuir custos de recrutamento e treinamento e aumentar a produtividade das equipes.
A alta rotatividade sempre esteve entre os principais desafios do varejo alimentar. A substituição constante de funcionários gera custos elevados, perda de conhecimento operacional e dificuldades para manter a qualidade do atendimento.
Nesse cenário, oferecer 2 folgas semanais tornou-se vantagem competitiva cada vez mais relevante.
Setor busca transição gradual
O avanço das mudanças também começou a repercutir nas entidades representativas do segmento. A discussão deixou de ser apenas estratégia isolada de recursos humanos e passou a integrar o debate institucional do setor.
A Abras (Associação Brasileira de Supermercados) e outras entidades empresariais têm manifestado apoio a modelos de jornada que ampliem o descanso dos trabalhadores, desde que a implementação ocorra de forma gradual e preferencialmente por meio de negociações coletivas.
A preocupação central está nos impactos sobre pequenas e médias empresas, que possuem menor capacidade financeira para ampliar quadros de pessoal e reorganizar escalas de trabalho.
Por isso, as entidades defendem processos de transição que conciliem melhoria das condições de trabalho com sustentabilidade econômica das operações.
Teste para debate nacional
A expansão da escala 5×2 para estados como São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal e Rio de Janeiro produz efeito político relevante sobre a discussão em Brasília, no Congresso Nacional.
Enquanto parte do empresariado argumenta que mudanças legais podem elevar custos e exigir novas contratações, grandes redes do setor demonstram que a reorganização das jornadas pode ser implementada como estratégia de gestão de pessoas.
O movimento não elimina os desafios operacionais, mas enfraquece a percepção de que a escala 6×1 é condição inevitável para o funcionamento do varejo.
Na prática, o setor supermercadista tornou-se laboratório do debate nacional sobre a jornada de trabalho.
E, antes mesmo de o Congresso concluir a decisão, parcela crescente do mercado parece ter chegado à conclusão de que oferecer mais tempo de descanso deixou de ser apenas reivindicação trabalhista para se transformar em necessidade.
Foto/crédito: Marcello Casal Jr / Agência Brasil – arquivo
Fonte: DIAP





