domingo, 14 junho, 2026
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Três anos após a partida da sindicalista Yolande Chaves, Cristina Gemaque relembra amizade e reflete sobre os desafios da vida

O Sindjuf-PA/AP compartilha com seus filiados e filiadas o texto “De Cristina para Yolande”, escrito pela servidora e sindicalizada Maria Cristina Gemaque e publicado originalmente no blog do jornalista Lúcio Flávio Pinto nessa quarta-feira, 10 de junho de 2026.

O texto presta uma sensível homenagem à sindicalista Yolande Chaves, figura marcante na história do Sindjuf-PA/AP e referência na luta pelos direitos dos servidores e servidoras do Poder Judiciário Federal. Três anos após sua partida, Cristina relembra a amizade construída ao longo dos anos e reflete sobre a vida e os desafios do cotidiano.

Reproduzimos a seguir o artigo, com autorização da autora

De Cristina para Yolande

Por Maria Cristina Gemaque

Minha grande amiga, Yolande Chaves, partiu há três anos. Reli uma carta que enviei para ela que começava perguntando para que servem as grandes distâncias a não ser para escrever cartas — sinceramente, não sei se li essa frase em algum lugar, ela é tão bonita!

As grandes frases não são só palavras bem empregadas, são dicionários sentimentais, que servem para entender o vocábulo das emoções. Elas nos auxiliam a vencer a ignorância de nós mesmos porque vivemos para nos acudir diariamente; podemos nos afogar em rios muito diferentes todos os dias.

Eis o motivo pelo qual sempre questionei o conceito de mesmice. Como se o mundo precisasse de algo espetacular, fora do comum, para que ele não fosse o mesmo, quando, na realidade, ele nunca é o mesmo, ainda que seja um desfilar de hábitos, uma repetição(?) do ontem.

A rotina nos socorre do caos da existência porque viver dói. A lei da gravidade dos rituais diários faz a dor cair no esquecimento, mas qual é a altura necessária para a dor despencar do edifício do nosso ser? O que mais rui além da dor?

Essas proezas do cotidiano, essas pequenas coisas que se acotovelam de urgência e que contam como passamos nossos dias, meses, anos e décadas narram a nossa história porque é como percorremos a maior parte das nossas vidas: enfrentando o dia a dia.

Parto do princípio de que se a vida precisa ser enfrentada é porque ela é um desafio. Tudo culpa da Primeira Lei de Newton, aquela que diz que “um objeto permanecerá em repouso ou em movimento uniforme em linha reta a menos que tenha seu estado alterado pela ação de uma força externa.”

Então imagine que você acabou de acordar, você está paradinho e tende a continuar assim, a não ser que a sua vontade, essa potência externa, exerça força suficiente para se levantar; isso porque a inércia é a base da mecânica clássica: se o corpo está em repouso, continua em repouso; se está se movimentando, continuará a se movimentar.

Newton deve estar se contorcendo na sepultura com meus exemplos, de qualquer maneira vou seguir com o raciocínio. A inércia do cotidiano é uma resistência a mudanças; acontece que para viver você, obrigatoriamente, tem que alterar seu estado de repouso. Agora me diga, herói, se isso não é uma espécie de bravura?

O outro lado da moeda é que se você estiver em movimento, vai manter a velocidade e a direção em que se encontra. Os workaholics que o digam!

Não estou justificando o comodismo, estou dizendo que há um ponto em comum entre estar parado e continuar a correr. Não estou dando odes à rotina, estou dizendo que ela pode ser um bote salva-vidas ou uma canoa furada.

Existe uma máxima que diz que a natureza é econômica, então ela devia ganhar o prêmio Nobel de economia com a invenção do piloto automático para poupar energia, porque o nosso cérebro a consome demais, é um perdulário.

O cérebro gasta durante o dia a mesma quantidade de caloria que correr meia hora; é uma pena que pensar não emagreça. Para reduzir nossos esforços cognitivos, ele criou o hábito, cumpridor fiel da lei do menor esforço, nunca levou uma multa. Repetimos até automatizar o comportamento, até não pensar mais no que estamos fazendo, por isso meu irmão Luiz me disse, quando eu fazia aulas de direção, que eu estaria apta a dirigir no dia que não precisasse mais pensar na marcha que deveria engatar.

O que fazer com a angústia de não sabermos se estamos indo devagar ou rápido demais, se estamos estragando nossas vidas e desperdiçando nosso tempo, ficando em demasia no modo automático?

Trabalhei em um lugar onde nós tínhamos a gaveta do “não sei”, colocávamos lá tudo que não sabíamos responder de imediato. A vida tem uma enorme gaveta desse tipo, se você a usa, parabéns, você não é um robô.

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