quarta-feira, 8 abril, 2026
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Sobrecarga invisível: mulheres acumulam jornadas de cuidado e enfrentam maior risco de adoecimento mental

Antes mesmo de sair para o trabalho, muitas mulheres já cumpriram uma longa lista de tarefas: organizar a rotina da casa, cuidar dos filhos, marcar consultas médicas, acompanhar os pais idosos e resolver demandas familiares. Essa rotina, que muitas vezes passa despercebida, revela uma realidade dura: a sobrecarga feminina.

No Brasil, as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas a mais por semana ao trabalho de cuidado não remunerado do que os homens. Entre as mulheres negras, essa carga é ainda maior, chegando a 22,4 horas semanais. Os dados são do estudo Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho, lançado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).

Essa realidade não se limita às estatísticas. Ela se materializa no cotidiano de milhares de mulheres que conciliam trabalho profissional, responsabilidades domésticas e o cuidado com familiares.

Rotina de múltiplos cuidados

A servidora do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8), Jacqueline Chaves de Almeida, conhece bem essa rotina. Além das atividades profissionais, ela administra as tarefas da casa e cuida de três idosos e de um filho com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para ela, a sobrecarga feminina é resultado de um processo histórico em que as mulheres passaram a ocupar espaços no mercado de trabalho, mas sem que houvesse uma redistribuição das tarefas domésticas.

“A mulher, ao longo do tempo, acumulou papéis para ocupar espaços que só eram reservados ao homem. Já estes permaneceram incólumes, pois não tiveram que assumir tarefas domésticas. O jargão é que não foram preparados ou mesmo estão condicionados ao que sempre se impôs na lógica patriarcal”, afirma.

Segundo Jacqueline, o peso dessa realidade não se resume ao cansaço físico. O impacto mais intenso ocorre no campo emocional.

“O meu cansaço maior, com certeza, é mental. Meu cérebro sempre tem que estar atento ao que ocorre dentro de minha casa devido à carga de responsabilidade, porque lido com pessoas sem autonomia e, simultaneamente, não posso me descuidar das minhas responsabilidades laborais.”

Ela observa que essa sobrecarga também é percebida entre colegas de trabalho, que enfrentam o desafio de conciliar as demandas profissionais com a gestão da casa e da família.

Para a servidora, parte dessa lógica está associada a narrativas culturais e religiosas que historicamente atribuíram às mulheres a responsabilidade pelo cuidado do lar.

“Pela mensagem bíblica, cabe à mulher a edificação de seu lar, cuidar dos filhos e se sujeitar ao marido. A mulher transpôs as fronteiras do lar, porém o cuidado com o lar ainda lhe pertence como atribuição prioritária.”, afirma.

Sobrecarga e saúde mental

O impacto dessa realidade também aparece nos indicadores de saúde mental. Segundo a psicóloga Nicolly Guimarães Santos, o Brasil registrou, no ano passado, mais de 546 mil afastamentos do trabalho por questões relacionadas à saúde mental. As mulheres lideram esses afastamentos, especialmente em casos de ansiedade, depressão e abuso de substâncias.

De acordo com a psicóloga, vários fatores contribuem para esse cenário, incluindo o acúmulo de responsabilidades e a forma como a sociedade constrói expectativas sobre o papel feminino.

“Entre os predicados associados ao feminino, um dos mais fortes é o cuidado. Muitas mulheres acabam adoecendo porque se veem presas à lógica da ‘mulher valorosa’, aquela que precisa dar conta de tudo — da casa, do trabalho, da família”, explica.

Para Nicolly, essa pressão social impacta diretamente a qualidade de vida.

“Essa dupla ou tripla jornada provoca uma redução na qualidade de vida da mulher. Além de historicamente receber salários menores, ela também carrega a responsabilidade pelo cuidado dentro de casa, o que aumenta a sobrecarga e contribui para o adoecimento.”

Desigualdade racial no cuidado

A psicóloga também chama atenção para o recorte racial dentro dessa realidade. No Brasil, as mulheres negras são as que mais assumem tarefas de cuidado, tanto dentro de suas próprias famílias quanto em trabalhos domésticos e de assistência.

Segundo ela, essa situação tem raízes históricas profundas, relacionadas à divisão social do trabalho que, desde o período colonial, associou as mulheres — especialmente as mulheres negras — às funções de cuidado.

“Além do recorte de gênero, nós temos um recorte racial muito importante. As mulheres pretas são as que mais cuidam: das crianças, dos idosos e da família como um todo”, destaca.

Mulheres adoecem mais

Os efeitos dessa sobrecarga aparecem também nos diagnósticos de saúde mental. De acordo com Nicolly, as mulheres tendem a apresentar até três vezes mais quadros de ansiedade e depressão do que os homens.

Para ela, é fundamental questionar a ideia de que as mulheres precisam assumir todas as responsabilidades familiares.

“Nós, mulheres, não precisamos carregar o peso do mundo. Muitas vezes dizem que somos responsáveis pelo sucesso da casa, da relação, dos filhos. Mas essa lógica precisa ser revista”, afirma.

A psicóloga defende que a divisão das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos deve ser compartilhada entre homens e mulheres.

“A mãe não pode assumir sozinha tantas responsabilidades. Isso gera sobrecarga, sofrimento e muita culpa. É importante rever essas cobranças para que as mulheres possam viver com mais plenitude.”

Sinais de alerta

O corpo costuma dar sinais antes de um quadro mais grave de adoecimento mental. Entre os principais sintomas de alerta estão dificuldade para respirar, tremores, sudorese, problemas de sono, acordar frequentemente durante a madrugada, pensamento acelerado e sensação constante de estresse.

Também podem surgir tonturas, aumento da pressão arterial e dificuldade de relaxar, indicando que o organismo está sob forte pressão emocional.

Para a psicóloga Nicolly, reconhecer esses sinais e buscar ajuda profissional é fundamental. Mas, acima de tudo, enfrentar o problema da sobrecarga feminina exige mudanças coletivas — na divisão das responsabilidades domésticas, nas políticas públicas de cuidado e nas expectativas sociais impostas às mulheres.

Imagem: ilustrativa gerada por inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI).


Tainá Lima

Jornalista do Sindjuf-PA/AP

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